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“A justiça é cega, mas ela enxerga no escuro”
Quem pronunciou a frase acima não foi Gandhi, nem Bush, tampouco Frank Castle. Foi o juiz aposentado Nicholas Marshall, personagem central da série de TV “Justiça Final”, televisionada durante minha infância. A idéia era a básica – um juiz que tentava fazer justiça pelo sistema, até que criminosos mataram sua família e ele virou um justiceiro das ruas, pois não “acreditava mais no sistema”.
A idéia é antiga – ocorre uma injustiça, procura-se o sistema formal de resolução, ninguém resolve nada, a vítima se enfurece e sai armada até os dentes atrás dos “moços do mal” para fazer justiça.
Que bom que na televisão, nos quadrinhos e nos livros não há inocentes. Por que no mundo real está ocorrendo uma “justiceirização” dos usuários de internet, ainda que em quase todas as vezes analisadas motivada prioritariamente pela vontade de fazer o bem ao próximo.
Venho testemunhando exemplos diversos, como o resultado da premiação do Best Blogs Brazil, em que o blog vencedor de uma das categorias, o “Planejando meu Casamento”, foi acusado de roubo e Incitação a infrações ao regulamento pelo blog concorrente, que conclamou a “trapaça em nome do bem” (mediante a criação de perfis falsos para “inflar” a votação desse concorrente no site), sob a bandeira de combater a “nefasta” atitude da autora do blog “Planejando meu Casamento”. Não havia provas nem indícios de que a autora do “Planejando…” havia “roubado” na votação, mas a acusação do concorrente foi forte o suficiente para diversos usuários de internet abraçarem a “causa” e começar a votar no blog concorrente, deixando o “Planejando…” em larga desvantagem.
Ou seja, “justiça” feita com os próprios bits. Mas sem prova, e utilizando um meio ilegal (falsidade ideológica – votar mais de uma vez fazendo-se passar por diversas pessoas). A autora do “Planejando” estava julgada e condenada – sem direito à defesa - por uma parcela da comunidade. Até que a notícia se espalhou na comunidade de usuários do twitter que, indignados com a atitude questionável do concorrente, iniciaram uma ampla campanha via twitter para que todos os usuários do twitter votassem, cada um uma vez, no “Planejando”, que acabou vencendo a competição, duas vezes, uma pela votação via internet e outra pela avaliação do júri.
Foi também pelo twitter que um dos presentes ao último Campus Party sentiu o poder do julgamento de uma multidão furiosa, em razão de ter excedido os limites do bom senso ao bolinar uma das Coelhinhas da Playboy que estavam lá – a reação foi firme, debatida amplamente em diversos meios da internet, que fez com que o culpado tivesse sua sentença rapidamente pronunciada na internet: “culpado” e “ostracismo” – apagou seu perfil do twitter e outras presenças virtuais, e terá que talvez começar de novo com um novo nick, sempre sob o risco de ouvir algum comentário “você não é o bolinador de coelhinhas?”.
Esse foi um caso em que aparentemente a comunidade eletrônica reagiu acertadamente contra alguém que consistentemente, e perante testemunhas, passou dos limites. Mas e se a “conduta ilegal” dele não tivesse ocorrido? E se tivesse sido outra pessoa? Tudo o que esse usuário construiu, para a história, tornaria-se nada. Qualquer busca no google com seu nome traria o estigma de “bolinador”, e não há sentença judicial que poderia desfazer esse histórico de internet (como desfazer os resultados de busca do google para os quais pus o link acima?). A autora do “Planejando…” quase saiu prejudicada por causa de uma acusação vazia.
Meios jurídicos há para tentar minimizar tais problemas, mas nunca conseguem voltar as coisas ao devido lugar depois que acontecem, rápidas demais.
O que importa mesmo é cada usuário de internet parar para pensar dez segundos, ao menos DEZ, antes de apertar “enter” naquela mensagem “cheia de justiça” que pode, mesmo sem querer, mandar um pai de família para a guilhotina. Se todos agirem com um mínimo de bom senso, quem sabe até a minha profissão não se torna obsoleta. Quem quer advogado quando as pessoas se acertam mutuamente, evitando problemas?… nem eu quero.
“O que importa mesmo é cada usuário de internet parar para pensar dez segundos, ao menos DEZ, antes de apertar “enter” naquela mensagem “cheia de justiça” que pode, mesmo sem querer, mandar um pai de família para a guilhotina. Se todos agirem com um mínimo de bom senso, quem sabe até a minha profissão não se torna obsoleta. Quem quer advogado quando as pessoas se acertam mutuamente, evitando problemas?… nem eu quero.”
não sabia que advogados eram tão inocentes… vc deve se sentir mto a vontade no seu blog… =p
belíssima imagem BTW
@Vitor : à vontade no meu blog eu me sinto. Mas em geral o advogado serve para prevenir ou remediar conflitos, em diversas instâncias. É figura essencial de um sistema, por que esse sistema é baseado em conflito.
E se o sistema fosse diferente, seria necessário um advogado para escrever tudo, detalhar cada aspecto? Penso que não.
O problema é ser diferente… acho que o ser humano briga por qq coisa por natureza… tipo Leviatã
Eu ainda acho que as pessoas se levam a sério demais. Quer dizer, acho a questão da briga irrelevante perto da importância que dão ao tal prêmio Best Blogs Brazil. A internet se tornou uma grande e irrelevante enquete. Ou um grande forum cheio de gente brigando pra não chegar a lugar nenhum.
@Renato
Concordo que algumas brigas são pouco relevantes para a sociedade como um todo, no final das contas. Mas e os casos de difamação? E as acusações soltadas ao vento que podem comprometer uma pessoa? É com isso que me preocupo.
Uma das formas de diminuir isso é com um cuidado maior na hora de escolher que informações liberar na internet. Escreverei sobre isso logo logo.
Aí sim, com isso concordo.
Bom dia, Marcelo e pessoal em geral,
sei que o objetivo do post não foi esse, mas como você mencionou “Justiça final”, gostaria de saber se tem aí lendo que tenha os episódios dessa série para vender. Podem entrar em contato pelo angelotitan@ig.com.br.
Valeu!
Vou recomendar aos colegas com certeza